"Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:

'Trouxeste a chave?'"

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Da água (Soneto do rio)

Como nascente de um rio caudaloso
meu querer escorre em ondas cristalinas,
se liquefaz em poesia e, generoso,
deságua em mais amor, em verso e rima.

Como água me sinto, fluindo serena,
eu sou nascente, sou rio e correnteza:
escorro e me derramo, doce e amena,
mas não me prendo, nem aceito a represa.

E, como o rio que corre em liberdade,
eu sou a água que encontra um atalho;
por entre as pedras deslizo incontida,

e enfim deságuo no mar da eternidade.
Como a onda que quebra, eu me espalho:
de minha essência se alimenta a própria vida.

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