"Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:

'Trouxeste a chave?'"

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O sorriso de Giselle


Giselle pediu um poema
e eu, tola, concordei.
Pensei : “talvez um soneto,
com rigor metrificado”...
(um poema assim pedido,
com tanto cuidado e zelo,
é assunto delicado,
não é qualquer poemeto!)
Eis que, quando comecei,
vi-me diante de um dilema:
É que o sorriso de Giselle
é muito mais bonito
que qualquer tolo poema
que eu pudesse ter escrito.
O sorriso de Giselle
ilumina o infinito,
e não há verso torto
que possa descrever
a medida de conforto
que sorriso tão sereno
pode oferecer.
Pois eu lhes digo que a tristeza
alegrar-se-ia ao ver
o sorriso de Giselle
em toda a sua grandeza.
E não tem coisa mais linda,
não há nada que supere,
a ternura que não finda,
e a alegria à flor da pele
do sorriso de Giselle.

Para Giselle Cardoso

terça-feira, 14 de abril de 2015

Do ar (Soneto etéreo)

Sou Noto: esculpo nuvens na alvorada,
no anil e excelso pálio luminoso.
Quando soprar a minha cálida lufada
tu sentirás o meu abraço vaporoso.

E quando corro, forte e altaneiro,
e me espalho, incontido e insurgente,
sou Euro: o que impele o veleiro
ou arrebata o marinheiro de repente.

Sou essência incorpórea e intangível
e meu sopro é gélido e inclemente:
me conhecem como Bóreas, o terrível.

E então sou Zéfiro, o vento do poente:
danço no espaço, etéreo e indefinível,
anunciando a primavera iminente.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Da água (Soneto do rio)

Como nascente de um rio caudaloso
meu querer escorre em ondas cristalinas,
se liquefaz em poesia e, generoso,
deságua em mais amor, em verso e rima.

Como água me sinto, fluindo serena,
eu sou nascente, sou rio e correnteza:
escorro e me derramo, doce e amena,
mas não me prendo, nem aceito a represa.

E, como o rio que corre em liberdade,
eu sou a água que encontra um atalho;
por entre as pedras deslizo incontida,

e enfim deságuo no mar da eternidade.
Como a onda que quebra, eu me espalho:
de minha essência se alimenta a própria vida.

Sobre memória e Neruda

Em 11 de setembro de 1979 alguém pegou este livro (Vinte poemas de amor e uma canção desesperada) e escreveu na página 65, a página em que está o poema número 20, um dos meus favoritos.
Quase 36 anos depois o livro vem para minhas mãos com essa e muitas outras inscrições do anônimo proprietário anterior.
É engraçado pensar que a nossa existência, por frágil e efêmera que possa parecer, deixa marcas das quais não nos damos conta. 
Será que o anônimo do poema 20 pensou nisso quando escreveu? Será que passou pela cabeça dele, ou dela, que alguém que só nasceria nove anos depois daquele setembro um dia teria o mesmo livro nas mãos e se perguntaria, lendo a inscrição que acompanha um dos poemas mais tristes do livro, quem teria deixado aquela marca? 
Como se chamava? Quem era? O que sentiu quando leu o poema, e quando pegou no lápis para escrever umas tantas palavras? 
A memória tem dessas coisas, é toda feita de afeto. O livro vai continuar marcado como está, e eu vou continuar me perguntando quem foi o misterioso poeta da página 65. 

A vida, amigos, é bonita que dói!