"Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:

'Trouxeste a chave?'"

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 25 de março de 2011

As folhas em branco


Gosto de coisas novas, coisas brilhantes e recém-prontas, as novidades me excitam... Novas idéias, novos hábitos, novos passatempos... Em compensação, tenho uma certa repulsa pelo velho, pelo gasto, pelo usado... Talvez por isso eu tenha tanta aversão à ideia da velhice, mas suporte relativamente bem a ideia da morte. Crendo, como eu creio, na reencarnação, a morte abre uma possibilidade de uma nova vida, com cheirinho de nova, brilhante de nova, uma nova vida pra fazer tudo de novo. Lembro que, quando criança, adorava desenhar, e gastava resmas de papel fazendo rabiscos, cada folha um novo desenho, de novo, de novo, de novo... Minha mãe, muito prática, observou as implicações de tanta ostentação, e me apresentou a um calhamaço de folhas que ela chamou “folhas de rascunho”. Eram papéis velhos, usados, gastos, com um lado impresso e apenas um lado da folha em branco para que eu pudesse fazer meus desenhos sem tanto desperdício. Juro que tentei, mas cada vez que eu pegava uma das “folhas de rascunho”, as marcas, as dobras, as letras sobre o papel me desanimavam, tiravam toda a vontade de continuar desenhando, de modo que eu voltava sempre às folhas impecavelmente brancas recém-tiradas do pacote... Minha resistência à velhice passa por aí: o que fazer desta imensa folha já gasta e rabiscada que serei eu?

Contudo, ainda espero. Porque, da mesma forma que aprendi, com o tempo, a desenhar em folhas de rascunho, a vida, tenho certeza, ainda há de ensinar como fazer belos desenhos nas folhas já gastas da vida...

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